Seminário de Vinhais (2)
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- Categoria: Personalidades e Instituições
- Publicado em quarta, 05 julho 2006 22:34
- Escrito por Manuel Cordeiro
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Personalidades & Instituições
Seminário de Vinhais (2)
É necessário recuar ao ano de 1740 para encontrarmos as origens do Seminário de Vinhais. Nesse ano, no dia 7 de Janeiro, foi concedida pelo Rei D. João V a licença necessária para a sua criação. Podemos questionarmo-nos porque é que num local tão remoto e afastado dos locais de decisão, foi criada uma instituição que viria revolucionar a pacata vila de Vinhais e a própria região do Distrito de Bragança. A resposta é simples e podemos encontrá-la nos Missionários Apostólicos que estavam instalados em Portugal e pediram ajuda aos “oficiais da Câmara e moradores da vila” para interferirem junto do poder no sentido de conseguirem autorização para tal. Para concretizar esta ideia tiveram que trazer para a sua causa a Câmara Municipal, a nobreza da região e todo o povo anónimo da vila.
Os argumentos usados pelas forças vivas locais foram baseados no facto de não haver qualquer convento religioso que “servisse as vilas de Vinhais e Paçó, com mais de 40 povoações”.
Outra razão, talvez a mais importante, resultou de uma ida à região, em 1717, de dois missionários apostólicos de Espanha, para fazer missão, ou seja, para divulgar as virtudes e os métodos de trabalho da sua ordem religiosa. Segundo o Frei João Velásquez, Vinhais satisfazia os requisitos necessários para a instalação de um hospício à imagem da sua ordem religiosa.
A primeira pedra foi lançada no dia 6 de Janeiro de 1752, dando seguimento à autorização concedida por D. João V e pelo Bispo de Miranda, Frei João (V) da Cruz. Os primeiros 80 anos de vida do Convento de S. Francisco de Vinhais ou Seminário de Nossa Senhora da Encarnação, decorreram sem sobressaltos e o seminário foi um local de formação de muitos religiosos, uns mais conhecidos que outros. O Frei António de Jesus foi, talvez, o mais conhecido de todos os que ali estudaram nestes 80 anos.
As lutas entre Miguelistas e Liberais obrigaram ao fecho de muitas instituições religiosas e levaram ao exílio de muitos dos missionários que ali estudavam ou exerciam o seu apostolado. Todos os bens do seminário foram confiscados e o espólio da sua biblioteca roubado e incendiado. Seguiu-se um período em que as suas instalações alojaram repartições públicas e, até, um quartel militar. No ano de 1920 foi ali instalado o Seminário Menor, onde eram ministrados os 2 primeiros anos do curso que dava acesso ao sacerdócio, sendo os restantes leccionados no Seminário Maior de Bragança.
Segundo Virgílio do Vale, antigo estudante e amigo deste seminário, grande conhecedor da sua história e da história da região, podem encontrar-se algumas curiosidades que ajudam a conhecer melhor esta instituição que deu educação a muitos transmontanos, muitos dos quais com dificuldades financeiras e, portanto, sem condições para concretizar os seus sonhos e os dos seus familiares noutra qualquer instituição de ensino secundário e/ou superior. Basta dizer que só a partir do início dos anos 70 é que apareceram os Ciclos e as Escolas Secundárias pelas várias vilas do Distrito de Bragança. Os muitos professores, engenheiros, advogados, médicos, agricultores, padres e educadores em geral que ali começaram a sua actividade escolar são a prova da contribuição que este seminário teve no panorama escolar da região.
No livro Vinhais, Póvoa Rica de Homens Bons, Virgílio Vale chama à atenção para duas lápides situadas dos lados da porta da igreja que serve o seminário. Uma diz: ‘Fundou este Seminário José de Morais Sarmento, Fidalgo da Casa Real, Mestre de Campo e natural desta Vila de Vinhais, no ano de MDCCLII. Cedeu o Padroado dele nas mãos de Sua Majestade e faleceu no ano de MDCCLXII.’ Esta lápide mostra o envolvimento da nobreza sobre decisões de interesse para as suas terras.
Do outro lado da porta: ‘Sua Majestade Fidelíssima aceitou o Padroado deste Seminário e tomou para sempre o seu real nome e no de todos os seus sucessores debaixo da sua régia e imediata protecção no ano de MDCCLXXVII.’ Este texto só ficará completo se falar da figueira que nasceu e cresceu no campanário da igreja. Tudo aconteceu aquando da expulsão dos frades do convento, em 1834. Um frade subiu ao púlpito e gritou: Só voltará a haver missões nesta Igreja quando virdes uma figueira no campanário do templo da Ordem Terceira. Assim aconteceu. Na fenda de duas pedras de granito ainda hoje se pode ver a figueira que ali nasceu.
Manuel Cordeiro
Professor da UTAD


