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Abade de Baçal (2)

Personalidades & Instituições

Abade de BaçalAbade de Baçal (2)

A grande obra que nos deixou o Abade é constituída por 11 Tomos, sendo os primeiros 4, as Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, publicados em Coimbra e no Porto entre 1909 e 1918;, Os Judeus, Tomo V, Bragança 1925; Os Fidalgos, Tomo VI, Porto 1928; Os Notáveis, Tomo VII, Porto 1931; No Arquivo de Simancas, Tomo VII, Porto, 1932; Arqueologia, Etnografia e Arte, Tomos IX e X, Porto 1934 e Arqueologia e Etnografia, Tomo XI, Porto 1947.

Esta sua obra foi reeditada pelo Museu Abade de Baçal. Foi-lhes dado o título de “Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança – Arqueologia, Etnografia e Arte”. No dizer dos editores estas “são um repositório amplíssimo, completo quanto possível, de notícias respeitantes à nossa terra, interessantes sob todos os pontos de vista científicos, por mais variados que sejam. Representam, não uma tentativa mercantil, mas sim um preito de amor, um monumento carinhosamente erguido ao torrão natal, com grandes sacrifícios físicos, pecuniários ementais, não tanto pelo autor como pelo grupo de devotados regionalistas que omnimodamente o auxiliam. Todo o bragançano digno de tal nome tem obrigação moral de cooperar para o incremento e divulgação das mesmas”.

Levar a bom termo um trabalho com estas características, com deslocações a arquivos e a locais, muitas vezes longe de Bragança, constituiu um desafio não só à sua inteligência, mas também ao seu físico. Sem meios de transporte cómodos como os actuais, foi necessário calcorrear muitos quilómetros por caminhos sinuosos e de piso irregular que muito devem ter dificultado o seu trabalho. A colaboração de muitos amigos e homens notáveis nas suas terras, foram, no dizer do Abade, uma ajuda sem a qual era muito mais difícil enfrentar com êxito o desafio que se lhe colocava à medida que as suas pesquisas iam avançando.

Não é de estranhar que todo este trabalho mobilizasse muitas pessoas que faziam chegar ao Abade peças raras de arqueologia que foram a génese do futuro Museu regional que, mais tarde, tomou o seu nome, em reconhecimento ao papel decisivo que ele teve no seu aparecimento. Certamente foram necessários meios financeiros de alguma monta para conseguir tornar o trabalho realidade. Contando com os seus próprios meios e os das autarquias abrangidas, houve também alguns amigos a quem o Abade se refere como “Grandes Mecenas”. Por ser meu familiar, por parte de meu pai, destaco o Dr Meneses Cordeiro que aparece também como membro dos amigos do Museu, dos monumentos e obras de arte de Bragança, com uma cota mensal de 5$00.

Tal como escreveu o Abade no Prefácio do volume XI, na realidade esta obra é constituída por 12 volumes pois o XII volume deveria ser publicado nas comemorações do duplo centenário do Distrito de Bragança em 1939-1940. No entanto, por vontade do então Ministro da Educação Nacional, esse volume foi incluído nas obras comemorativas que a Academia Portuguesa de História publicou nessa data. O Ministro teve em conta não só o interesse da obra para o distrito, mas também o facto de o Abade pertencer a essa academia.

No Tomo XI escreve uma dedicatória ao Professor Abel Salazar, “dos melhores e mais generosos protectores do Museu Regional de Bragança”, considerando-se um seu devotado admirador e dilecto amigo.

Do Abade de Baçal todos conhecemos a sua faceta de estudioso e abade, esquecendo-nos muitas vezes das suas qualidades humanas, com o seu expoente máximo na sua postura de humildade e desprendido de tudo o que é supérfluo. Consultando a Internet, li um texto de alunos de uma escola secundária, certamente a partir de factos por ele relatados, que certo dia ele foi a Alfândega, convidado pelo seu Presidente, para lhe encomendar um trabalho sobre a história do seu município. Por casualidade era dia de feira quinzenal ou mensal. Passava o Abade pelas várias tendas onde os feirantes expunham os seus produtos quando reparou que estes o olhavam com curiosidade e desconfiança e passavam palavra para o colega seguinte para terem cuidado com o visitante que ali estava. Foi andando até que chegou ao hall de entrada da Câmara. O porteiro mirou-o de alto a baixo e proferiu a sentença: vá-se embora porque aqui não pode estar a pedir esmola. Tendo-lhe ele dito que queria falar com o Senhor Presidente, o porteiro ficou indignado e insistiu para que se fosse embora. Entretanto passou-se algum tempo e apareceu o Senhor Presidente que, ao ver o Abade, depressa o cumprimentou com a deferência devida a alguém importante e de gabarito intelectual. O porteiro ficou estupefacto e pediu desculpas ao Abade ao que este respondeu não ser o primeiro nem o único que dele desconfiou nesse dia. Este episódio espelha bem a simplicidade que era a sua vida e que o tornou muito querido de todos os que com ele privaram e o ajudaram.

Termino com as mesmas palavras que ele escreve no prefácio do Tomo XI: eu desta glória só fico contente; que a minha terra amei, e a minha gente.

Manuel Cordeiro

Professor da UTAD

Publicado no Notícias de Vila Real