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Clemente Meneres

Personalidades&Instituições

Clemente Meneres

A evolução que o mundo tem tido deve-se à capacidade que o homem tem para ver mais longe do que o que o rodeia. Clemente Meneres foi, ao seu tempo, um homem com uma visão muito para lá da sua terra natal, a Vila da Feira, onde nasceu no lugar da Cruz a 19 de Novembro de 1843. Os pais eram lavradores e industriais, situação muito vulgar à época. Além das terras que cultivavam eram também proprietários de uma serralharia e uma oficina especializada em tudo o que respeitava a fechaduras. As duas empregavam cerca de 40 operários. Foi ali que ele começou a sua aprendizagem e onde deu largas ao seu modo muito avançado de ver a vida. Rapaz perspicaz, depressa se apercebeu da diferença que havia entre a opulência alardeada pelos intermediários que negociavam com os seus pai e a vida pacata e difícil que estes levavam. Esta situação. além de lhe “abrir os olhos” para a realidade da vida, fez com que dali para diante enveredasse pela  actividade da distribuição, especialmente a da sua própria produção.

Uma carta de um tio que vivia no Brasil despertou a sua curiosidade e depressa decidiu experimentar viajar até ao Rio de Janeiro, tinha então 16 anos. A viagem começou na barra do Douro no barco Olinda e durou 41 dias. Chegado ao Rio, começou por trabalhar para o tio na liquidação do estabelecimento que este ali possuía. Terminada esta tarefa, que durou um ano, passou a trabalhar na chácara que o tio possuía no Catumbi. Por indicação do tio casou com uma sua filha, sua prima. A vontade de se tornar independente economicamente, levou-o a aceitar um emprego num armazém do Rio.

Em 1863 retorna ao Porto e em 1872 inicia uma vida cheia de sucessos e de negócios proveitosos que o levam a muitas partes do mundo. Começa pelo Brasil, vai à Áustria onde assiste à Exposição Universal de Viena, vai a Hamburgo e estabelece ligações comerciais por todas estas terras e outras por onde passa. Um destes contactos permite-lhe iniciar a exportação de azeite para a Rússia. No regresso da exposição de Viena passa pela Holanda, Bélgica e Inglaterra, onde estabelece contactos com importadores de vinho do Porto. Esta sua constante deslocação à procura de novas oportunidades de negócio valeram-lhe ser alcunhado de andarilho pelos seus amigos negociantes como ele. No entanto ele sabia que só assim podia arranjar mais clientes e expandir os seus negócios.

A 10 de Abril de 1874, inicia actividade aquela que será a sua empresa de destaque a C. Meneres e Cª, passando a ser o único sócio e gerente. Pode não parecer, mas nesta altura ele ainda um jovem pois estava na casa dos trinta anos e cheio de ideias e de vontade em concretizá-las. Assim, negociando em azeite, vinho e cortiça não espanta que procurasse os locais onde estes produtos eram produzidos. Assim, em 18 de Maio de 1874 parte do Porto e chega ao Romeu vindo de comboio, onde pretende comprar sobreirais que abundavam na região. Muitas das pessoas com quem falava no sentido de lhe venderem os sobreiros, diziam-lhe que o que ela comprava eram pedras e até nalguns casos tinham alguma pena dele pois achavam que um homem de fora vinha interessar-se por terrenos que, embora tivessem sobreiros, estavam pejados de pedras. Houve um senhor que lhe disse que não lhe vendia os sobreiros, mas que lhos dava de boa vontade, tal era a sua descrença no seu valor. Aos sobreiros seguiram-se as oliveiras e as vinhas. Com os sobreirais comprados, fundou a Quinta do Romeu que hoje toda a gente conhece, seguindo-se a Companhia Meneres. Com matéria prima à mão montou uma fábrica de cortiça que, ainda hoje, se pode visitar, localizada junto à ribeira que atravessa a quinta.

Foi um dos grandes responsáveis pela vinda do caminho-de-ferro para Trás-os-Montes, em especial, a linha do Tua. Foi um homem muito amigo de todos os que com ele conviveram tendo deixado uma Escola Primária, para a qual alojou e contratou professores e onde era fornecido o almoço às crianças que a frequentavam. Numa placa alusiva à sua chegada ao Romeu, cerca das 4 horas da tarde do dia 18 de Maio de 1874, pode ler-se: “procurei uma estalagem e encontrei a única que lá existia, a da Senhora Maria Rita, que não tinha nada para nos dar de comer. Mandei então assar bacalhau acompanhado, a primeira vez para mim, de pão negro e centeio”.

Quem hoje não conhece a Quinta do Romeu? E o restaurante Maria Rita? E o Museu das Curiosidades?

 

Manuel Cordeiro

Professor da UTAD

Publicado no Notícias de Vila Real