Torre de Moncorvo // Memórias mineiras
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- Categoria: Jornal do Nordeste - Regional
- Publicado em terça, 24 agosto 2010 11:09
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Através da exposição de fotografias e outros elementos, o Museu do Ferro e da Região de Moncorvo pretende registar histórias de vida, construídas na exploração mineira local

O Museu do Ferro e da Região de Moncorvo está a organizar uma colectânea de memórias de antigos mineiros, trabalhadores da Ferrominas, a partir de peças e registos fotográficos expostos no Museu. “Mais do que fotografias estáticas, que por si não falam, a forma de pormos este material a falar é por esta via, expor, dar a conhecer e depois temos um computador, como uma base de dados, na qual os visitantes podem escrever a sua própria história de vida”, explicou Nelson Campos, delegado do Museu. Actualmente, o pano de fundo para essas memórias é uma exposição de fotografias intitulada “Ferrominas 57”, que fazem parte do “Fundo Eng.º Gabriel Monteiro de Barros”, antigo director da Ferrominas, organizado a partir de uma doação do sobrinho, João Pedro Barros Cabral. A informação existente acerca dessas fotografias está a ser carregada na base de dados que deverá ser enriquecida com os testemunhos dos antigos trabalhadores que visitem a exposição, cuja abertura, no passado dia sete, contou com a presença do sobrinho de Monteiro de Barros, o mesmo que doou o espólio do seu tio ao Museu, e de Fernando Melo Mendes, outro dos antigos directores da Ferrominas, no início da actividade da empresa. João Pedro Monteiro de Barros Cabral, engenheiro de minas, como o seu tio e o seu avô, trabalhou nas minas de Jales, na década de 80. Nessa altura costumava visitar muito o seu tio, em Moncorvo. “Ele era solteiro, não tinha herdeiros directos e quando morreu nomeou-me testamenteiro e legou-me praticamente todo o seu espólio que eu depois, em boa hora, ofereci aqui ao Museu”, explicou, sublinhando o bom trabalho de organização de Nelson Campos e dos seus colaboradores, com os apoios da Câmara e institucionais. Esse trabalho, permitiu apresentar, “uma obra que muito honra e perpetua o nome do meu tio, que não era de Moncorvo, mas que viveu a sua vida profissional toda a em Moncorvo e quis continuar em Moncorvo depois de se reformar. Era aqui que tinha os seus amigos e está aqui enterrado, não muito longe daqui do Museu, no cemitério da vila”. Gabriel Monteiro de Barros, nascido na Granja, perto de Vila Nova de Gaia, era filho de um dos sócios fundadores da Ferrominas. A exploração de minério de ferro na região de Moncorvo tem sido uma constante ao longo dos séculos. A Ferrominas, criada em 1951, retomou nessa década a exploração, de uma forma mais intensiva. A empresa, passou por vários processos. Nacionalizada em 1975, manteve laboração até 1984. Neste processo, Gabriel Monteiro de Barros, esteve praticamente sempre presente, pelo conhecimento que tinha da mina.
No início pediam aos trabalhadores para levar ferramentas
Fernando Melo Mendes foi engenheiro responsável pelo arranque da exploração da mina de fraga da Carvalhosa, em 1951, concessão da Ferrominas. Esteve em Moncorvo três anos. Regressou para a abertura da exposição de fotografia. “Eu era responsável pelos trabalhos de exploração. Havia cá dois engenheiros. O engenheiro Gabriel Monteiro de Barros era o responsável pela parte administrativa e pelos dinheiros envolvidos na exploração e eu era responsável pela parte técnica”, explicou, referindo que antes de ir para Moncorvo trabalhou nas minas da Panasqueira. Daqueles tempos de instalação da mina recorda-se de durante dois anos e meio não ter tido um dia de descanso, nem no dia de Natal. Antes do trabalho técnico, propriamente dito, ajudou a angariar pessoal, nas aldeias das redondezas. A esse pessoal pediam também para trazer ferramentas, como pás ou enxadas, porque naquela altura ainda não tinham providenciado o material necessário para retirar o minério. “Nessa altura, pagávamos 20 escudos por dia, a cada um, mais dois escudos a quem trouxesse ferramenta, porque nós não tínhamos. Quem levasse uma enxada, ou uma picareta, ou qualquer coisa, recebia mais dois escudos”, contou. Foi também necessário abrir uma estrada até Carvalhosa, onde mais tarde se ergueu o bairro mineiro e a exploração. Face ao que ofereciam como salário, Fernando Melo Mendes recordou que não foi difícil encontrar pessoas dispostas a trabalhar na mina. “Não foi, porque este pessoal aqui na região vivia com muitas dificuldades. Eram vítimas dos grandes agricultores, principalmente os grandes vinicultores que chegaram a fazer pressões políticas grandes para que a mina não fosse para diante, porque nós pagávamos 20 escudos que eles não pagavam. Era o melhor empregador, na altura”. João Pedro Monteiro de Barros confirmou que esse era um problema que se colocava em todo o país. “Os lavradores não queriam perder a mão-de-obra que tinham, barata, e então dificultavam imenso os trabalhos mineiros”, afirmou.
Vida difícil, a de mineiro Teodorico Silva Carriço, antigo chefe de máquinas contou-nos a história, com algumas diferenças. “Ainda não ganhavam 20 escudos, na altura. Em 56 ganhavam 18 escudos e era preciso que não faltassem mais de dois dias no mês, porque se não chamavam eles ir ao boneco, cortavam-lhe o ordenado”. Teodorico veio de Lisboa trabalhar como mecânico. Antes de vir, a Ferrominas mandava os motores para reparar na oficina onde então trabalhava. Depois foi convidado a ir para a terra onde acabou por casar, construir casa e ficar a viver o resto da vida. O que mais o impressionou, quando chegou, foi a fome que havia. “Eles vinham das vinhas do Douro, da Régua, do Pinhão, com um ordenado de 10 escudos por dia. Para eles eram mais oito escudos, mas coitados, compravam um pão e eram logo seis escudos. Eles bebiam muito. Compravam um garrafão de vinho e depois eu via-os lá sentados nas pedras, ao almoço, a comerem pão com cebola e a beberem a pinguinha. Como eu vim de Lisboa o que me custou muito foi isso, ver a miséria que isto era, passavam fome, tipos com seis e sete filhos e oito, a ganharem 18 escudos”, contou. Joaquim Vieira também não é natural do concelho, embora tenha ficado aí a viver, praticamente toda a vida. A família era de Penafiel e o primeiro a vir trabalhar para a Ferrominas foi o seu pai. Mais tarde veio a família, com ele incluído. Era ainda um rapaz, de onze anos, em 1956, quando começou a trabalhar como ajudante de enfermagem, no posto médico da empresa, a convite do médico João Machado Leonardo. Trabalhou no escritórios, mais tarde, e depois passou para a oficina, na perspectiva de um salário melhor, onde trabalhou com Teodorico. Saiu das minas quando foi à tropa, voltou e depois ainda tentou a emigração, mas acabou por regressar à mina. Do que se recorda mais foi de uma determinada época, em que houve uma greve, segundo contou. Os trabalhadores não recebiam, foram ameaçados pela PIDE e pela GNR, que tinha um posto colocado de propósito junto à exploração mineira, como era a prática da altura, mas a greve manteve-se. “Fomos intimidados e ameaçados, mas muita gente decidiu manter-se firme, até que depois apareceu o Champallimaud, que foi o salvador da situação”. Segundo apontamentos cronológicos de Jorge Custodio, publicados no volume I, de 2002, do Catálogo de Estudos do Museu do Ferro e da Região de Moncorvo, foi em 1965 que Chapalimaud adquiriu as acções de Monteiro de Barros, pai de Gabriel Monteiro de Barros, e assumiu o passivo de 65 mil contos que a empresa tinha na altura. Nos tempos difíceis, em que os trabalhadores recebiam pouco, ou não recebiam, tinham de comprar tudo fiado, recordou Joaquim Vieira. “Estivemos dois anos sem receber um centavo da empresa, nós vivíamos à conta do fiado, que era “oferecido” por José Maria Moita, o “Latas” e o falecido Júlio do Felgar, que nos fiavam. A gente tinha uma caderneta e íamos buscar as coisas”. Talvez por causa destes problemas, em 1959 foi criada uma cooperativa onde os trabalhadores iam buscar os bens que necessitavam. Nesse tempo os salários eram pagos em senhas que, nessa cooperativa, podiam ser trocadas por bens. O problema era quando precisavam de algo que não podia ser comprado na cooperativa. “Neste período em que não havia dinheiro para ninguém, nós queríamo-nos deslocar, por exemplo, à minha terra, tínhamos que bater à porta do engenheiro Monteiro de Barros, com jeito, para pedir dinheiro emprestado”, recordou.
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